O peso diminui, as roupas mudam e, ao olhar no espelho, você percebe um rosto mais fundo ou com aparência cansada. A expressão “rosto de Ozempic” se popularizou para descrever essas mudanças. Mas ela não é um diagnóstico e pode dar a impressão de que o problema pertence exclusivamente a um medicamento.
É o Ozempic ou o emagrecimento?
Uma perda significativa de peso pode reduzir a gordura facial e tornar mais evidentes alterações que já existiam na pele e nos tecidos de suporte. Isso também acontece após cirurgia bariátrica e outras formas de emagrecimento.
Ainda se investigam possíveis efeitos específicos dos medicamentos nos diferentes tecidos. Até o momento, não é adequado afirmar que a semaglutida “derrete o colágeno” nem atribuir toda mudança facial a uma toxicidade direta.
A quantidade de peso perdida, a idade, a distribuição prévia de gordura e a capacidade de adaptação da pele ajudam a explicar por que as pessoas mudam de maneiras diferentes.
Quais mudanças podem aparecer?
Algumas pessoas notam têmporas e bochechas mais fundas. Outras percebem sulcos mais marcados, piora do contorno ou pele com aspecto mais frouxo. Uma mesma pessoa pode ter perda de volume em uma região e excesso relativo de pele em outra.
Por isso, tentar “levantar tudo” com preenchimento pode aumentar o rosto sem tratar adequadamente a flacidez.
Quando usar bioestimuladores?
Sculptra e Radiesse podem ser considerados para determinadas alterações de firmeza e qualidade dos tecidos. Eles têm mecanismos distintos e devem ser escolhidos conforme a região e o objetivo.
O efeito é gradual. Não se deve prometer que o bioestimulador vá impedir todas as mudanças do emagrecimento ou devolver, sozinho, a estrutura anterior.
Quando o ácido hialurônico ajuda?
Pode ser útil para perdas localizadas de volume ou projeção. O planejamento deve identificar onde uma reposição faz diferença, usando quantidades compatíveis com as proporções do rosto.
Em quem já tem preenchimentos antigos, o histórico e o exame são especialmente importantes. Acrescentar produto sem saber o que já existe pode gerar excessos.
E as tecnologias, como ultrassom e laser?
Ultrassom microfocado pode ser considerado para flacidez leve a moderada em áreas selecionadas. Em um rosto que já perdeu gordura, é essencial respeitar profundidades, parâmetros e regiões que não devem perder mais volume.
Lasers, como CO₂ e Erbium, podem ter papel em rugas marcadas e alterações de textura. Eles não substituem a reposição de volume quando esse é o problema principal. Radiofrequência também pode entrar em indicações específicas, com avaliação dos benefícios, riscos e características do equipamento.
Não existe uma lista de aparelhos que todo paciente precise fazer.
Quando a cirurgia pode ser mais adequada?
Se há excesso relevante de pele ou queda importante dos tecidos, os limites dos procedimentos de consultório precisam ser reconhecidos. A avaliação cirúrgica pode oferecer uma resposta mais compatível com a alteração estrutural.
A escolha do momento depende da evolução do peso e das condições clínicas. Acompanhar o emagrecimento e planejar gradualmente costuma ser mais útil do que tentar corrigir cada mudança imediatamente.
Como começar?
O primeiro passo é separar perda de volume, flacidez e alterações da superfície da pele. Nutrição adequada e treino de força ajudam no cuidado global e na preservação de massa muscular, mas não garantem evitar mudanças faciais.
A literatura sobre tratamentos específicos após GLP-1 ainda está em desenvolvimento. Não há um procedimento obrigatório nem um protocolo comprovado para todos. A proposta é tratar o que incomoda, com naturalidade, sem comprometer os benefícios do cuidado da saúde.
Dr. Pedro Secchin — Dermatologista | CRM-SP 195965 | RQE 73850